Cultura de Massa

Diversos elementos da cultura de massa brasileira foram utilizados na construção do espetáculo e influenciaram a criação dos figurinos.

CHANCHADA

O termo chanchada é bastante polêmico, utilizaremos a definição: “comédia popularesca, em geral apressada e desleixada, com interpolações musicais”[1]. A partir de 1918, o circo brasileiro incluiu uma nova modalidade de espetáculo em seu repertório: o “circo-pavilhão” ou “circo-teatro” (RUIZ, 1987, p. 37), que apresentava “farsas desopilantes, as chamadas ‘chanchadas’” (idem) repleta de personagens-tipo: a ingênua, o galã, o vilão, etc. (ibidem).
Muitos artistas de circo-teatro, posteriormente, fizeram grande sucesso nos teatros do centro do Rio de Janeiro e nas chanchadas cinematográficas. As primeiras produções significativas do cinema brasileiro foram realizadas na então capital federal e aproveitavam artistas populares, de rua e circenses, em suas produções (CATANI/SOUZA, s/d, p.18). Era o início da chanchada cinematográfica, que se dividiu em duas fases: a primeira, até o principio dos anos 1940, caracteriza-se por argumentos e situações simples e com números musicais homogêneos, carnavalescos ou juninos (CATANI/SOUZA, s/d, p.66); a partir de 1940 até meados da década de 1960, auge desse estilo, os temas carnavalescos e juninos dão lugar a temas que se referem ao cotidiano, à política e à realidade sócio-econômica do homem urbano (idem).
Sérgio Augusto em seu livro Este Mundo é um Pandeiro – a chanchada de Getúlio a JK evidencia uma forte relação entre o cinema (especificamente a Cinematográfica Atlântica), o teatro de revista e o rádio, estes três segmentos formaram um “triângulo cultural sem paralelos em nossa indústria de entretenimento de massa” (1989, p.19).  As produções da Atlântida contavam em seu elenco com astros como Oscarito, Grande Otelo e Ankito (acrobata circense), cantores como Emilinha Borba, Luis Gonzaga e Carmen Miranda, e, claro, as coristas, com vedetes como Dercy Gonçalves. Augusto observa que a Rádio Nacional “foi na era do rádio o que a Rede Globo seria na era da televisão” (1989, p.19), “integrando o país de norte a sul” (idem). Catani e Souza afirmam que as chanchadas cariocas, principalmente na sua primeira fase, utilizaram-se muito dos sucessos do carnaval (s/d, p. 33), como é possível ver no anúncio o filme Alô, Alô, Brasil!: “Vamos ouvir o maior repertório de músicas carnavalescas, cantadas pelos ases do nosso rádio – a avant-première do carnaval de 1935” (idem). Diante desses relatos é possível observar que esses dois meios de entretenimento (a chanchada e o rádio) foram grandes difusores do carnaval carioca em todo território nacional, sobrepondo as festividades de Momo do Rio de Janeiro sobre outras manifestações carnavalescas no imaginário nacional (principalmente no sudeste) e posteriormente no imaginário estrangeiro.
Oscarito, Grande Otelo e Dercy Gonçalvez em A Baronesa Travessa
Grande Otelo e Ankito
Oscarito em Neném

Anilza Leoni e Ankito, em Vai Que é Mole (1960)


As influências do Teatro de Revista, da Chanchada, do Carnaval, do Circo, e do Circo-Pavilhão, permanecem nos meios de comunicação de massa até os dias de hoje e perpassam diversos programas televisivos. 

Os Trapalhões

Toma lá. Dá cá

REVISTA O CRUZEIRO
Outro fator importante para divulgação no imaginário nacional e internacional do carnaval carioca foi a revista O Cruzeiro, em especial a coluna Garotas, com ilustrações de Alceu Penna que “ditava” a moda, os costumes e as fantasias carnavalescas de cada ano, e que em 1939, ao viajar para os EUA, desenhou os figurinos de Carmen Miranda e o Bando da Lua para os filmes que estes gravariam em Hollywood no mesmo ano (JUNIOR, 2004, p. 68).
Capas da Revista O Cruzeiro
Figurino de Alceu Penna para Carmen Miranda
Carmen Miranda e o Bando da Lua, figurinos de Alceu Penna
Carmen Miranda na capa de O Cruzeiro - divulgação do south american way...


Embora não tenham sido encontrados relatos que vinculem diretamente a criação dos figurinos à revista (mas sim o contrário, a estética do espetáculo influenciou os trajes de Alceu Pena, como será visto no tópico Tropicalismo), ela é destacada por ter contribuído grandemente na criação da imagem do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa e Brasil, país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, além de ter sido uma das principais referencias de moda feminina e de divulgação do modo de vida da alta sociedade do país.
Ilustrações de Alceu Penna para coluna As Garotas

CARNAVAL CARIOCA

As escolas de samba depois de 1939, por imposição pelo Estado Novo, passaram a incluir, obrigatoriamente, temas da história do Brasil nas suas letras, criando, desta forma, enredos em que personagens históricos de diferentes períodos “convivam” no mesmo espaço tempo, ao lado de personagens fictícios. A mesma forma de criação era utilizada por Oswald sem sua dramaturgia, através da paródia e da intertextualidade, criando uma estrutura teatral baseada na miscelânea de tipos, espaços e tempos, “carnavalizando toda a situação e, por conseguinte, criando um espaço teatral carnavalizado onde o conflito entre estrutura popular e estrutura de elite fica explicitamente demonstrado.” (GARDIN, 1995, p.102).
Nas peças O Homem e O Cavalo ou A Morta tal recurso é evidentemente utilizado, mais do que em O Rei da Vela, porém, a carnavalização surge na encenação em passagens como o final do espetáculo - quando após a morte de Abelardo I o elenco entra em cena cantando, diante do casal Abelardo e Heloísa (GARDIN, 1995, p.161) - e tem presença fortíssima nos figurinos: seja na escolha de materiais, optando por tecidos acetinados, que carregam muito brilho; seja na colocação em cena de trajes completos carnavalescos, como figurinos de Totó Fruta do Conde, Dona Cesarina ou do Índio das Bolachas Aimoré.

Jamelão no Carnaval de 1960
foto contida no livro "Mangueira A Nação Verde e Rosa"
Visite:http://receitadesamba.blogspot.com/
Etty Fraser e Renato Dobal
Foto: Acervo Multimeios do Centro Cultural São Paulo
Edgar Gurgel Aranha como Totó Fruta-do-Conde
Foto: Acervo Multimeios do Centro Cultural São Paulo

CASSINO DO CHACRINHA
As influências do Teatro de Revista, da Chanchada, do Carnaval, do Circo, e do Circo-Pavilhão, permanecem nos meios de comunicação de massa até os dias de hoje e perpassam diversos programas televisivos. A título de exemplo, podemos destacar: A Praça é Nossa, do SBT, Toma lá, Dá cá, e Os Trapalhões, ambos da TV Globo. Porém, para o espetáculo estudado, os programas de Abelardo Barbosa, o Charinha, são especialmente importantes. É marcante a presença de elementos das referências citadas, entre eles: coristas (chacretes), apresentações de sucessos musicais, além, é claro, da figura híbrida de apresentador e palhaço, próprio Chacrinha.

Segundo José Celso, Oswald de Andrade “deflorou a barreira da criação no teatro e nos mostrou as possibilidades do teatro como forma, isto é, como arte. Como expressão audiovisual. E principalmente como mau gosto. Única forma de expressar o surrealismo brasileiro. Fora Nelson Rodrigues, Chacrinha talvez seja o seu único seguidor sem sabê-lo” (CORREA apud STAAL, 1998, p.90).

Programa do Chacrinha - TV Excelsor/1965
     Estreia do Cassino do Chacrinha na TV Globo/1982






[1] Definição de Alex Viany, encontrada na obra de Sérgio Augusto. Para mais dados sobre as definições do termo ver: AUGUSTO, 1989, p.17