Tropicalismo

O Tropicalismo não pode ser colocado exatamente com uma referência utilizada pelo Teatro Oficina para criação de O Rei da Vela, pois o espetáculo é um dos expoentes do movimento, porém, justamente por isso, faz-se necessário observar alguns aspectos desse período.
A definição de Ismail Xavier sobre a efervescência cultural e a absorção das manifestações artísticas estrangeras ocorridas entre 1967 e 1968 é bastante sintética e esclarecedora:

O Tropicalismo, de modo especial, instaura uma nova forma de relação com tais influxos externos e produz o choque com suas colagens que trabalham a contaminação mútua do nacional e do estrangeiro, do alto e do baixo, do país moderno – em pleno avanço econômico e urbanização – e do país arcaico, este que até setores da esquerda cultivavam, no plano simbólico, como reserva de autenticidade nacional ameaçada. Em sua montagem de signos extraídos de contextos opostos, o Tropicalismo promoveu o retorno do modernismo de Oswaldo (sic)Andrade e combateu uma mística nacional de raízes, propondo uma dinâmica cultural feita de incorporações de Outro, da mistura de textos, linguagens, tradições. (XAVIER, 2001, p. 31/32)

Pode-se dizer que o Tropicalismo teve um período embrionário sintetizado nas ideias do trio Hélio Oiticica (artista plástico), Rogério Duarte (designer gráfico) e Luiz Carlos Saldanha (fotógrafo). A influência dos três marcou toda uma geração de artistas.
Hélio Oiticica com suas obras Parangolés 
Rogério Duarte com o cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol
filme de Glauber Rocha
Filme de Glauber Rocha com fotografia de Luiz Carlos Saldanha

Assim, quando se diz que o filme de Glauber Rocha, Terra em Transe, provocou total identificação no elenco do Teatro Oficina, ao ponto da companhia dedicar a Glauber a estreia de O Rei da Vela, (PEIXOTO, s/d, p. 73) - peça que por sua vez, foi assistida por Caetano Veloso antes de compor Tropicália (CORRÊA, 1972, in STAAL, 1998, p. 163), que tem o mesmo título da instação de Hélio Oiticica - se está falando da reverberação das elucubrações daquela “trindade de bruxo” (CORREA In LEAL, 2009,Terra Magazine).

Cartaz de Rogério Duarte para Terra em Transe, de Glauber Rocha

Tropicália - instalação de Hélio Oiticica remontada no Itaú Cultural

Tropicália - instalação de Hélio Oiticica remontada no Itaú Cultural


Tropicália, música de Caetano Veloso

Especialmente o trabalho de Rogério Duarte contribuirá para formação do quadro em que estava inserido o Teatro Oficina. O designer foi responsável pelos cartazes dos filmes: Deus e o Diabo na Terra do Sol, A Grande Cidade, Meteorango Kid e A Opinião Pública, entre outros; e das capas dos discos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Jorge Mautner. 


O artista trabalhou com os conceitos usados pela pop-art - incorporação das histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema - associados à vanguarda do concretismo - aproximação entre trabalho artístico e industrial, quadros construídos exclusivamente com elementos plásticos (planos e cores) - desta forma, seu trabalho “revelou-se ser uma face industrial das artes plásticas, o mesmo tipo de trabalho que Andy Warhol e tantas pessoas validaram e consolidaram" (DUARTE apud LEAL, 2009, Terra Magazine).

Obra de Andy Warhol com latas de sopa Campbell


Hélio Eichbauer, cenógrafo e figurinista de O Rei da Vela, ao mesmo passo que foi penetrado pela estética tropicalista influenciou diversas áreas da cultura: no cinema, influenciando Macunaíma[1], de Joaquim Pedro de Andrade; na moda, marcando o desfile da Rhodia[2] em 1968 que lançou a Linha Internacional Tropicalista; e na arquitetura, com o edifício do Teatro Oficina, de Lina Bo Bardi e Edson Elito[3] (CORRÊA, 2006, p. 17/18).


Croqui Ato I de O Rei da Vela


Maquete Ato II - O Rei da Vela


Croqui Ato III - O Rei da Vela

Macunaímafilme de Joaquim Pedro de Andrade  e figurinos de Anísio Medeiros

Macunaímafilme de Joaquim Pedro de Andrade  e figurinos de Anísio Medeiros


Modelos de Alceu Penna para desfile da Rhodia que em 1968 lançou a linha "Internacional Tropicalista"

Sede do Teatro Oficina - prédio projetado por Lina Bo Bardi e Edson Elito





[1] Adaptação para o cinema do livro homônimo de Mário de Andrade, direção de Joaquim Pedro de Andrade, produzido em 1969.
[2] A empresa Rhodia a partir de 1956, interessada em expandir o setor têxtil, organizou desfiles de moda com a produção de Lívio Ragan e criações de Alceu Pena. Na temporada de 1968 a coleção tinha “uma proposta revolucionária de explorar até a exaustão elementos da contracultura internacional, com aspectos mais representativos da cultura brasileira – música, literatura, artes plásticas, comportamento, cores e recurso naturais (plantas e animais).” (GONÇALO, 2011, p.258).
[3] O teatro construído em 1967 foi reestruturado em 1981, adquirindo o aspecto atual. O projeto foi realizado pelos arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Elito, que integraram conceitos da arquitetura modernistas com propostas de José Celso, tais como antropofagia, simbolismo, iconoclastia, e “o desejo de contato físico entre atores e plateia, o ‘te-ato’” (ELITO, 1999, s/p).