Terra em Transe





A partir de meados de 1967 até dezembro de 1968 quando foi decretado o Ato Institucional nº5 a cultura brasileira viveu uma verdadeira revolução, que teve início com a estreia do filme de Glauber Rocha: Terra em Transe. Segundo Ismail Xavier o filme “condensou o Cinema Novo, em agonia, e preparou o Tropicalismo” (XAVIER, 2001, p.70).

O Cinema Novo teve início em 1960 com as primeiras exibições dos curtas-metragens Arraial do Cabo e Aruanda, que tiveram enorme repercussão entrem jovens jornalistas e intelectuais brasileiros, entre eles Glauber Rocha que escreveu para o suprimento Suplemento Literário do Jornal do Brasil um artigo “saudando o nascimento de uma nova geração de cineastas” (SARACENI), o que disseminou a ideia de que um novo cinema estava sendo produzido no Brasil.

Arraial do Cabo de Paulo Cezar Saraceni e Mário Carneiro


O Cinema Novo, da mesma forma que companhias como o Teatro Oficina e o Teatro de Arena buscavam uma forma de fazer arte, completamente diferente do que os padrões estabelecidos na época: as chanchadas da Atlântida, os filmes da Vera Cruz (empresa irmã do Teatro Brasileiro de Comédia), os documentários-propaganda de Jean Manzon ou os documentários educativos do INCE.

Cartaz do Filme Floradas na Serra, da cinematográfica Vera Cruz, a empresa era irmã do Teatro Brasileiro de Comédia.

Cartaz do Filme Carnaval da Atlântida, chanchada da Cinematografia Atlândia

Cartaz do Filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. O designer de Rogério Duarte evidencia o rompimento com estética vigente.

Durante o Estado Novo diversas atitudes tomadas pelo governo Vargas foram determinantes para o cinema nacional, entre elas a criação entre 1936 e 1937 do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) que tinha como missão: “promover e orientar a utilização da cinematografia, especialmente como processo auxiliar do ensino, e ainda como meio de educação popular em geral” (Lei nº 378 de 13 de janeiro de 1937 apud CARVALHAL, 2009, p.04). O instituto produzia documentários sobre temas diversos, científicos, históricos ou baseados na literatura brasileira, como é possível verificar em alguns títulos: Lição Prática de Taxidermia, Barômetros, Os Lusíadas, Um apólogo – Machado de Assis (CARVALHAL, 2009, p.4). As produções científicas eram distribuídas para escolas e instituições de ensino, enquanto as históricas e literárias eram exibidas nos cinemas de todo país antes dos longas-metragens (RAMOS/MIRANDA, 1997, p.299).
Em 1939 o governo Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e sancionou a lei de proteção ao filme nacional que obrigava os cinemas de todo país a exibir ao menos um filme brasileiro por ano (AUGUSTO, 1989, p.32). Jean Manzon, fotógrafo francês radicado no Brasil, foi fotojornalista da instituição e tornou-se amigo de Vargas. Em 1952 abriu sua própria empresa cinematográfica, que foi responsável por diversos filmes-propaganda do governo federal e valeu-se da obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais para veicular filmes publicitários por ele produzidos. A partir de 1961, produziu documentários sob encomenda para o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) instituição responsável por propagandas anticomunistas e de oposição a João Goulart (CADERNUTO, 2009, p.01).

Um Apólogo, filme de Humberto Mauro baseado na obra homônima de Machado de Assis. Produção educativa do INCE. 
No início dos anos 1960 jovens jornalistas e cineastas, influenciados pelo Neo-Realismo italiano e pelo Nouvelle-Vague francês, que produzia filmes de baixo orçamento, com temas cotidianos e, muitas vezes, com elencos de não atores, buscaram uma forma de cinema que, como relata Saraceni - diretor de Aruanda - “tomasse as ruas e fosse ao encontro da sociedade brasileira, incorporando novas formas de linguagem e renovando as questões estéticas e culturais do Brasil” (www.tempoglauber.com.br/cinemanovo.htm). 

Roma Cidade Aberta, filme de Roberto Rossellini, um dos ícones do Neo-realismo Italiano.



Jules et Jim, filme de Francois Truffaut integrante do movimento Nouvelle-Vague francês.


Desta forma, inicia-se, principalmente na Bahia e no Rio de Janeiro a produção de filmes que trouxeram a tona questões como identidade nacional e formação social, temas debatidos em diversas esferas em toda América Latina durante dos anos 1960. O Cinema Novo, para tratar de tais questões e ao mesmo tempo dialogar com as linguagens cinematográficas mundiais contemporâneas, respaldou-se no Modernismo de 1920, que “criou a matriz decisiva dessa articulação entre nacionalismo cultural e experimentação estética” (XAVIER, 2001, p. 24)

O Cinema Novo alterou o papel do cineasta dentro da cultura brasileira, aprofundando sua relação com a música, o teatro e a literatura, através de parcerias com artistas, adaptações de livros (Vidas Secas, de Pereira do Santos, 1963) ou diálogos com obras literárias, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, que deriva em parte de Os Sertões, de Euclides da Cunha (XAVIER, 2001, p.18/19). Glauber Rocha foi um dos principais expoentes do movimento e seus trabalhos, a princípio, incitavam o povo para revolução que estava prestes a acontecer, como em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme de Glauber Rocha, uma das principais produções do Cinema Novo.


Porém, com o início da ditadura militar, perplexo diante da derrota da esquerda, Glauber roda, em 1967, Terra em Transe “a representação alegórica do golpe de estado na América Latina, em particular o de 1964 no Brasil. A encenação da trama política mobiliza as figuras que personificam as forças sociais, figuras que falam a linguagem dos interesses de classe e do jogo de Poder arbitrado pelo Capital” (XAVIER, 2001, p.130).
José Celso ao assistir a Terra em Transe foi “violentamente influenciado” (CORRÊA, 1998, p.114) e passou a “achar que o teatro brasileiro pedia a liderança para um cinema inquietante, arrojado, inovador, confuso como a realidade circundante. O teatro brasileiro continuava em uma timidez incompreensível” (SILVA, 2008, p.145). 

Terra em Transe, filme de Glauber Rocha.O Big Bang do Tropicalismo!


Análise dos Figurinos de Terra em Transe



Os figurinos e o cenário de Terra em Transe ficaram a cargo do jornalista e cineasta Paulo Gil Soares (que colaborou da mesma forma em Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1963). Entre 1969 a 1970 Paulo Gil Soares participou da Caravana Farkas, dirigindo uma série de documentários sobre o Nordeste brasileiro para o produtor Thomas Farkas. Seus filmes mais conhecidos são o documentário Memória do Cangaço, episódio do longa metragem Brasil Verdade (resultado da Caravana Farkas) e a ficção Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Traz (1967). De 1971 a 1983, na televisão, criou e dirigiu o programa Globo Repórter. Em 1985, publicou o livro Vida, Paixão e Morte de Corisco, o Diabo Loiro. Faleceu em 2000 no Rio de Janeiro.

Caravana Farkas, filme de Paulo Gil Soares, parceiro de Glauber Rocha, fez os figurinos de Terra em Transe.

Em Terra em Transe apenas um figurino não foi criado por Paulo Gil Soaras, o vestido branco da personagem Sílvia, interpretada por Danuza Leão. Esta peça do figurino foi uma criação do estilista Guilherme Guimarães.



Danuza Leão como a personagem Sílvia, de Terra em Transe
Figurino de Guilherme Guimarães.

Guilherme Guimarães, estilista que também reformulou o uniforme feminino da Marinha Brasileira  na década de 1960.
Terra em Transe se passa na fictícia cidade de Alecrim, no país Eldorado, onde o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) “pretende coroar-se imperador de Eldorado para impor aos sub-homens eldoradenses sua todo-poderosa vontade de super-homem.” Vieira (José Lewgoy), governador de Alecrim, “é um demagogo populista que se elege a custa do voto dos camponeses e operários para depois, no poder, ordenar o fuzilamento de seus líderes”. Don Julio Fuentes (Paulo Gracindo) “é a expressão máxima da burguesia progressista de Eldorado. Dono de tudo”.  Paulo Martins (Jardel Filho), o poeta, “é a consciência em transe de Eldorado” (trechos extraídos da sinopse do filme, disponível em www.tempoglauber.com.br).
 Ismail Xavier em Cinema Brasileiro Moderno coloca que

Há uma preocupação à Brecht de expor as contradições de Eldorado, país alegórico. Mas há também uma confluência de gestos, um desfile de máscaras grotescas, um conflito de carisma, uma obstinação mágica de um lado e de outro do confronto entre direita e esquerda, de modo a fazer tudo convergir para a representação do evento político maior – o golpe de Diaz – como um ritual coletivo, Transe. (2001, p. 130)

O filme conta com uma “figuração kitsch de espaços e personagens” (XAVIER, 2001, p.69), expõe por um lado um “tom de ritual” que “se afina com o uso de personagens simbólicas que condensam o mundo como verdadeiros emblemas naturais e sociais. De outro, estas figuras – sua ação, indumentária, declamação – são observadas por uma câmera que se comporta como um documentário” (idem, p.139).
As personagens de Terra em Transe são emblemáticas, sua função social é clara e seus figurinos atuam como ponto de apoio dentro do grande fluxo de acontecimentos e flash backs que, conjuntamente com os movimentos de câmera, provocam a sensação de mareio, de transe, no espectador.
O tema do filme é atual à época de sua execução, é um gripo de urgência de seus realizadores diante dos fatos recentes na política brasileira, assim, os figurinos dos personagens da classe média (de direita ou esquerda) são contemporâneos, são figurinos baseados na moda dos 1960 e o caso específico da personagem Sílvia, mulher da altíssima sociedade de Eldorado e uma espécie de prêmio oferecido por Diaz a Paulo Martins, usa um vestido do estilista Guilherme Guimarães.
A ação do filme decorre no período de cinco anos, e as personagens percorrem esse período com o mesmo figurino, que sofre pequenas modificações, com é o caso de Paulo Martins, o poeta, que aparece na cena inicial (tempo presente) com sobretudo, calça e camisa, e nas cenas subsequentes de flash back apenas retirou-se o sobretudo e foi acrescentada uma gravata ao figurino do personagem.


Paulo Martinz (Jardel Filho) e Porfírio Diaz (Paulo Autran). 

Glauce Rocha (Sara)José Lewgoy (Vieira) e Jardel Filho (Paulo Martinz).

Os personagens supostamente antagônicos no filme, Porfírio Diaz (representando as forças da direita) e Vieira (esquerda) usam as mesmas cores (preto e branco), porém invertidas: em Diaz prevalece terno e gravata pretos com camisa branca, enquanto Vieira usa terno e camisa brancos com colete e gravata pretos.  É interessante observar que o quanto os figurinos desses dois personagens se assemelham aos de Abelardo & Abelardo, personagens de O Rei da Vela na montagem do Teatro Oficina.


Paulo Autran como Porfírio Diaz em Terra em Transe




Fernando Peixoto como Abelardo II em O Rei da Vela


A direita da imagem José Lewgoy (Vieira)em Terra em Transe.


Renato Borghi como Abelardo I em O Rei da Vela.
As personagens do povo, lideradas pelo Homem e Mulher do Povo, são apresentadas com trajes também contemporâneos e que transmitem a impressão de um “coro” devido à semelhança de modelos e tons. O fato de o filme ser branco e preto contribui para essa homogeneidade.


Flávio Migliaccio e elenco como Homens do Povo em Terra em Transe
Há, ainda, algumas personagens explicitamente alegóricas como “o índio” (que também dialoga diretamente com o Índio das Bolachas Aimoré, personagem da montagem do Teatro Oficina), e “o português” que são apresentadas com um excesso de plumas e volumes, fazendo uma citação clara às fantasias de escola de samba. Essas personagens surgem no filme na primeira sequência de apresentação do personagem Porfírio Diaz, os três estão em uma praia, ao lado de uma grande cruz de madeira. A cena é uma representação da primeira missa realizada no Brasil e a personagem Porfírio Diaz, ao ser colocada ao lado do Índio e do Português transforma-se também em uma alegoria, a alegoria do Poder.  Se o Índio e o Português são imediatamente reconhecidos como tais, isso se dá através de seus figurinos assim, o terno negro de Porfírio Diaz, transforma-se, automaticamente, no mecanismo de reconhecimento do Poder.